O ideal de um “console de videogame 100% brasileiro” sempre esteve presente no imaginário tecnológico e cultural do país. No entanto, em um setor dominado por plataformas dispendiosas e ecossistemas restritos, o Lupi ( inicialmente chamado de Lo-fi Console) emerge para inaugurar uma transformação sob um viés inovador: focado na inclusão, na independência tecnológica e no aprendizado através dos jogos.

Idealizado pelo cientista da computação e educador Luiz Gustavo Lino, o Lupi é muito mais do que um console de jogos retrô. Trata-se de um projeto social, sem fins lucrativos, focado na democratização tecnológica para crianças, jovens e comunidades periféricas.

O Conceito: Games Acessíveis para Toda Realidade

Com o custo de vida elevado e os valores dos consoles de última geração ou portáteis ultrapassando a barreira dos milhares de reais, o Lupi atua no sentido oposto. Pensado para famílias de baixa renda e para ambientes educacionais, o objetivo do projeto é entregar um videogame que seja o mais barato e simples possível de produzir, sem abrir mão de uma experiência técnica fluida.

A realidade das classes D e E: Dados da PNAD apontam que apenas 3% das casas da classe D/E possuem um videogame (ou seja, de cada 100 residências, 97 não têm nenhum console). Por outro lado, 86% possuem televisão e 84% têm algum tipo de acesso à internet (muitas vezes via celular pré-pago ou Wi-Fi dividido com o vizinho).

O público das mães solos: O projeto mapeou que existem cerca de 11 milhões de mães solos no Brasil, sendo que 70% delas criam os filhos sem nenhum tipo de apoio familiar direto. Nos eventos (como no SESC), ver mães com os filhos no colo jogando juntos reforça o papel social do Lupi como união familiar e alívio na rotina exaustiva.

O projeto foi fundado sob três pilares fundamentais:

  1. Projeto Social e Educação: Transformar o ato de jogar em uma porta de entrada para a lógica, programação e artes digitais.
  2. Soberania Digital: Construção de hardware, software e ferramentas com autonomia técnica no Brasil.
  3. Inclusão: Levar estações de tecnologia para feiras periféricas, ONGs, projetos sociais e escolas.
  4. “A ideia é você ter um videogame que seja acessível e suficiente para uma criança (…) além de ser uma plataforma de desenvolvimento para que ela possa criar e editar seus próprios jogos.” — Luiz Gustavo Lino.

Hardware e Software: A Magia da Produção Artesanal e Nacional

Diferente de projetos que utilizam soluções prontas importadas no formato white label, o Lupi traz design de hardware e software totalmente desenvolvidos do zero no Brasil:

  • Construção Artesanal: As placas do projeto utilizam métodos artesanais de fabricação e montagem de circuitos (como uso de percloreto e solda manual) e componentes acessíveis e econômicos — como a placa Raspberry Pi Pico —, permitindo que até oficinas de montagem de hardware sejam ministradas para estudantes.
  • Linguagem Lua: O ecossistema roda inteiramente sob a linguagem de programação Lua — criada originalmente no Brasil na PUC-Rio. Trata-se de uma linguagem leve, rápida e amigável para iniciantes.
  • Desempenho e Visual: Com estética inspirada em plataformas clássicas de 8 e 16 bits (posicionando-se visualmente no espectro entre o NES e o Neo Geo), o sistema roda a 60 FPS cravados, sem input lag, suportando shaders e exibindo milhares de cores.

Detalhes Técnicos Curiosos

  • Para baratear o projeto e lidar com a escassez de recursos, a equipe teve que criar soluções improváveis como escrever código do zero para testar cartões de memória falsificados comprados em e-commerces suspeitos (descobrindo se um cartão de 32GB tinha de fato o espaço anunciado ou se era “fake”).
  • Escolha do VGA em vez do HDMI: O Lino explica que o HDMI é um protocolo licenciado fechado que exige o pagamento de taxas em dólar por aparelho produzido, o que encareceria o console.
    A solução encontrada foi usar VGA, aproveitando o fato de que muitas TVs e monitores antigos (especialmente modelos fabricados entre 2000 e 2010 comuns no mercado de usados) possuem essa entrada, e um conversor simples para HDMI custa cerca de R$ 15.
  • O “Raid” de Cartões SD: O console utiliza dois cartões SD simultaneamente para otimizar a leitura de dados sem gargalos (enquanto um chip lê o código e as músicas, o outro lê os gráficos de forma isolada).
  • Faixa de Preço Flexível: Dependendo do modelo de produção (artesanal nas oficinas vs. industrial em larga escala), o Lino estima que o custo final do Lupi pode variar de R$ 80 a R$ 800.

A Escolha do Modelo de Oficinas (Em vez de Venda em Massa)

  • Por que oficinas? O Lupi foca em ser distribuído através de oficinas presenciais (como em edições da Latinoware, Retrocom, feiras e parcerias com o SESC e o parque tecnológico de Itaipu). Dessa forma, a pessoa aprende eletrônica, solda os componentes do próprio console e leva para casa por um custo simbólico (ou totalmente gratuito via patrocínio), o que também ajuda a contornar burocracias complexas e custos de certificação de hardware (como homologações de antena/Wi-Fi).
  • Por que nem tudo é Open Source (ainda): O projeto mantém partes do ecossistema sob controle centralizado de propósito. O criador relata o medo de que, se abrissem tudo de vez sem filtros, o projeto pudesse sofrer forks desordenados que desvirtuariam a proposta original (como remover traços de controle parental ou descaracterizar o foco educacional voltado para crianças). A ideia é manter o controle criativo enquanto o console amadurece.

Criação de jogos dentro do próprio console

imagem ilustrativa

Além de rodar jogos próprios, o Lupi é equipado com ferramentas internas de criação. Com um teclado e mouse USB conectados, o console vira um estúdio de desenvolvimento compacto:

  • Editor de Pixel Art embutido: Permite desenhar e editar os sprites do jogo diretamente no aparelho.
  • Editor de Código e Documentação: A proposta do projeto inclui o desenvolvimento de um SDK e guias didáticos em estilo “revista clássica de videogame”, facilitando o aprendizado de programação em Lua direto na tela da TV.
  • Formatos Educacionais: O ecossistema está em constante integração com iniciativas focadas em desenvolvimento e educação, como parcerias e interações na GAMEscola, na PerifaCon e em feiras de desenvolvimento indie pelo Brasil.

Biblioteca e Jogos

A biblioteca de jogos do Lupi é formada por títulos feitos pela comunidade e por desenvolvedores independentes locais.

O maior símbolo da plataforma é o carismático Balão Gatinho (disponível na página oficial da iniciativa no itch.io):

  • Aventura Lúdica: O jogador controla um balão com formato de cabeça de gato que precisa navegar por fases cheias de desafios e espetos, coletando estrelas.
  • Desenvolvimento Colaborativo: Criado originalmente em uma edição da Game Jam Plus (com game design de Lucas Toso, do canal Controles Voadores), o jogo ganhou uma versão 2.0 refinada, expandida e com pixel art desenvolvida pela artista e desenvolvedora TulipaDev.

O Futuro do Lupi

O Lupi está trilhando caminhos para se consolidar formalmente como uma ONG, garantindo que o console permaneça livre de pressões puramente mercadológicas e continue focado em oficinas, doações e kits educacionais para escolas e fábricas de cultura.

Embora o console ainda não esteja à venda comercialmente em massa, a equipe reforça que, quando houver disponibilização de kits, a prioridade máxima será manter o menor custo de produção possível e a documentação 100% aberta.

Acompanhe o Projeto e Saiba Mais: