No dia 16 de outubro de 2026, durante o evento da Latinoware em uma transmissão ao vivo, o BigLinux apresentou uma nova versão de sua distribuição. O projeto está ampliando seus horizontes e consolida-se em um ecossistema próprio com desenvolvimento de software livre. Além disso, traz dezenas de aplicativos, ferramentas de produtividade, soluções multimídia e recursos voltados para a administração e personalização do Linux.

Agora, o projeto ganha um novo site, um fórum reformulado e um catálogo organizado de aplicações que demonstram a dimensão do trabalho desenvolvido por sua comunidade. Entre as novidades estão ferramentas para edição e conversão de áudio e vídeo, transmissão de tela, captura de imagens, redução de ruído com inteligência artificial, gerenciamento de hardware, recuperação do sistema e personalização do ambiente gráfico.

Além disso, outro destaque é a expansão do BigCommunity, iniciativa que leva a experiência e as ferramentas do ecossistema para diferentes ambientes gráficos, como GNOME, XFCE e Cinnamon, ampliando as possibilidades de utilização para quem não utiliza o KDE Plasma. Com projetos próprios, repositórios, ferramentas de desenvolvimento e aplicativos construídos com tecnologias modernas, como GTK4 e Rust, a iniciativa demonstra que o desenvolvimento brasileiro de software livre está cada vez mais diversificado.

Vamos conferir os detalhes!

Conheça a inspiração: Kurumin

Se você começou no Linux no Brasil lá pelos anos 2000, tem uma boa chance de ter ouvido a mesma frase de alguém: “Instala o Kurumin”. Era o CD que rodava direto, detectava o hardware sozinho e falava português (coisa rara na época).

O Kurumin acabou em 2008. Mas a ideia por trás dele não.

Leia também: Distribuições Linux Brasileiras que Deixaram Saudade.

Ela continua viva no BigLinux, que mostrou na Latinoware 2026 que hoje é bem mais do que mais uma distro.

Antes da novidade, um pouco de contexto, porque muita gente que chegou agora no Linux talvez nunca tenha ouvido falar dos dois.

O Kurumin foi criado pelo Carlos Morimoto, do antigo Guia do Hardware (atual Hardware). Era baseado no Knoppix, vinha com o painel de “Ícones Mágicos” que resolvia configuração chata em poucos cliques e chegou a ser uma das distros mais usadas do país. Em janeiro de 2008, o Morimoto encerrou o projeto, e uma tentativa de continuação, o Kurumin NG, morreu pouco depois.

O BigLinux é o sucessor espiritual do Kurumin

O BigLinux nasceu em 2004 justamente em cima do Kurumin, pelas mãos do Bruno Gonçalves, que até hoje é o fundador e mantenedor. Quando o Kurumin acabou, o próprio fórum do Guia do Hardware apontava o BigLinux como a alternativa nacional mais próxima do Kurumin 7.

Daí o título de sucessor espiritual. Não é fork, não é a mesma base de código. É a mesma missão: fazer o Linux simplesmente funcionar para quem não quer viver no terminal.

De lá para cá, o BigLinux trocou de base algumas vezes (Kurumin, Kubuntu, e desde 2021 o Manjaro, que por sua vez vem do Arch), sempre com KDE Plasma como padrão. São 22 anos de projeto, mantido por voluntários, o que coloca o BigLinux entre os maiores e mais longevos projetos de software livre do Brasil.

Novidades do BigLinux apresentadas na Latinoware 2026

No dia 16 de outubro, a equipe do BigLinux fez a apresentação na Latinoware com transmissão ao vivo no canal do projeto. E o recado principal foi esse: o BigLinux deixou de ser só uma distro para virar um ecossistema de aplicativos próprios.

  • Big Desktop: a estreia mais ambiciosa. Um ambiente gráfico próprio, escrito em Rust, que o projeto descreve como leve e econômico em memória. Além disso, foi mostrado pela primeira vez na própria Latinoware.
  • Site novo: reformulado do zero, com catálogo de projetos, documentação e 32 opções de idioma.
  • Catálogo de 21 aplicativos: cada um com página própria, link para o GitHub, issues e releases. Alguns já estão na ISO, mas outros ainda estão em estágios diferentes de disponibilização.
  • BigCommunity: as edições mantidas pela comunidade com GNOME, XFCE e Cinnamon, para quem gosta do jeito Big de fazer as coisas, mas não curte o Plasma.

Apps do BigLinux que se destacam

Listar os 21 aqui viraria catálogo de loja. Então separei os que mais me chamaram a atenção:

  • BigLinux Microphone: redução de ruído em tempo real com IA, rodando local, em cima do PipeWire. Você escolhe o modelo neural (GTCRN, DNS3, VCTK ou o DeepFilterNet3 opcional) e ainda tem equalizador, gate e cancelamento de eco. Para quem grava aula ou faz call do lado de uma obra, é ouro.
  • BigCam: transforma celular, câmera USB, DSLR ou câmera de rede em webcam.
  • BigNetScreen: manda a tela do Linux para uma TV, um projetor ou até um navegador.
  • BigLinux GRUB Restore: diagnostica e repara o GRUB a partir de um sistema Live. Aquele app que você só valoriza no dia em que o dual boot quebra (todo mundo aqui já passou por isso, não adianta negar).
  • BigLinux Swap Manager: configura ZRAM, zswap e swap pela interface gráfica.
  • Big Driver Manager: troca de kernel e de drivers Mesa sem terminal.
  • Big WebApps: transforma qualquer site em app de desktop, mas usando o navegador que você já tem instalado.
  • BigOCRPDF: extrai texto de PDFs e imagens digitalizadas, além do suporte a mais de 130 idiomas.
  • AshyTerm: terminal em GTK4 com gerenciamento de SSH e de arquivos embutido.

Um detalhe técnico curioso: boa parte desses apps é feita em GTK4 com libadwaita, mesmo o BigLinux sendo uma distro KDE. E é isso o que torna a promessa do projeto de beneficiar outras distribuições mais plausível. App bem feito em GTK4 roda bem em GNOME, e o código está todo no GitHub.

Mão na massa: teste o BigLinux sem instalar nada

O melhor jeito de conhecer o BigLinux é não precisar formatar nada. O próprio site oferece um teste direto no navegador, pelo DistroSea. Abriu, clicou, está usando.

Print da tela da DistroSea

Se quiser ir para o pendrive, os requisitos são modestos: processador 64 bits, 2 GB de RAM e 10 GB de disco no mínimo (o recomendado é 8 GB de RAM e 40 GB de disco). A ISO está em iso.biglinux.com.br.

Um aviso antes: hoje o BigLinux espera o Secure Boot desativado (o contrário do que a Epic vai exigir com o novo Easy Anti-Cheat). Confira como está o seu:

Se aparecer SecureBoot enabled, você vai precisar desativar na BIOS/UEFI para dar boot no pendrive.

E se você é dev e quer fuçar o código dos apps:

Troque o nome do repositório por qualquer outro do GitHub do BigLinux.

Mas por que “mais uma distro brasileira”?

Essa é a pergunta que aparece em todo post sobre distro nacional. E a resposta do BigLinux é justamente a mudança que ele mostrou na Latinoware.

O valor de uma distro derivada nunca foi a base. O Manjaro qualquer um instala. O valor está no que ela constrói por cima: ferramenta gráfica para o problema que o usuário comum tem, em português, sem exigir que ele entenda de PipeWire, de GRUB ou de ZRAM. Era exatamente isso que o Kurumin fazia com os Ícones Mágicos. O BigLinux só está fazendo em escala maior e com código aberto separado em projetos reutilizáveis.

O ponto polêmico: ecossistema próprio vale a pena?

Dá para entender os dois lados, então vamos a eles.

  • Vantagem: é tecnologia brasileira de verdade! Com nome, código e releases públicos. Além disso, os apps resolvem problemas concretos, onde vários podem servir a outras distros. E o projeto prova, há 22 anos, que uma comunidade voluntária consegue manter software relevante, no entanto, sem uma fundação bilionária por trás.
  • Desvantagem: Entretanto, um ecossistema grande pede gente. A página oficial lista 16 voluntários ativos cuidando de uma distro, dezenas de apps e agora um desktop inteiro em Rust. Por isso, é muita coisa para pouca mão e manter um ambiente gráfico próprio é uma das tarefas mais pesadas que existem no Linux. Além disso, a distro depende das decisões do Manjaro lá em cima e números como as “238 ferramentas exclusivas” que estão no site merecem ser lidos com calma.

E agora?

Mais do que oferecer um sistema operacional gratuito, o BigLinux busca construir uma plataforma colaborativa na qual os usuários, desenvolvedores, tradutores e entusiastas podem participar diretamente da evolução das ferramentas. Por isso, o novo fórum fortalece justamente essa proposta, permitindo compartilhar conhecimento, sugerir melhorias, relatar problemas e transformar necessidades reais da comunidade em soluções.

No entanto, se você nunca testou o BigLinux, o teste no navegador leva dois minutos. Mas se você já usa, o novo catálogo, é um bom lugar para descobrir app que você nem sabia que estava instalado.

E se você quer que esse tipo de projeto continue existindo, lembra que ele vive de voluntário. Tradução, documentação, teste, suporte no fórum e código são bem-vindos, e a página de contribuição tem tarefas para iniciante.

A apresentação completa da Latinoware:

Nota do autor: eu rodo NixOS com KDE Plasma no dia a dia, o mesmo ambiente que o BigLinux usa por padrão. Por isso, o que mais me chamou atenção foi ver tanto app em GTK4 saindo de uma distro KDE, feito para funcionar além dela. É o tipo de trabalho que transborda a própria distro, e é por isso que eu acho que projeto comunitário brasileiro merece mais espaço do que costuma ter.