Lembra quando a Epic abriu uma vaga de engenheiro sênior para cuidar do anti-cheat no Linux? Aqui na Sociedade Pinguim a gente noticiou isso em junho e terminou com uma pergunta: será que o Easy Anti-Cheat finalmente chegaria no Linux com o mesmo nível do Windows?
Quatro meses depois, a resposta veio. E veio em dose dupla.
No dia 14 de outubro, a Epic lançou o novo Epic Games Launcher em Preview, com versão nativa para Linux pela primeira vez. No mesmo dia, publicou o anúncio do Easy Anti-Cheat Linux v2, a reconstrução do anti-cheat que vai abrir caminho para o Fortnite no pinguim.
O que é o Easy Anti-Cheat e por que ele travava tudo
O Easy Anti-Cheat (EAC) é o sistema da Epic que tenta impedir trapaça em jogos online. Ele protege o Fortnite e uma lista enorme de jogos de outros estúdios.
O detalhe que muita gente não sabe: o EAC suporta clientes nativos de Linux desde 2014. Em 2021, passou a suportar jogos de Windows rodando via Wine/Proton. O problema é que esse suporte é opcional para cada jogo, e muitos estúdios nunca ativaram. O motivo, segundo a própria Epic, é que a implementação no Linux não oferecia a mesma proteção que a do Windows.
Ou seja, o gargalo nunca foi o Proton. Era a confiança de quem desenvolve o jogo.
E a própria Epic admite isso no anúncio: esse é o motivo de o Fortnite ainda não estar no Linux.
O que a Epic anunciou
São duas coisas diferentes, e vale separar:
- Launcher nativo para Linux (já disponível): em Preview, distribuído como AppImage. Suporte oficial para Ubuntu 22.04 LTS ou mais novo, Fedora 43 ou mais novo e Debian 12 ou mais novo. Outras distros podem funcionar, mas não são testadas. Pede CPU x86-64, 4 GB de RAM e 2 GB livres.
- Easy Anti-Cheat Linux v2 (ainda não disponível): a reconstrução do anti-cheat. O piloto vai rodar primeiro no Fortnite, em ambiente real. Depois de validado, a Epic promete liberar para outros estúdios levarem seus jogos multiplayer ao Linux.
- Fortnite no Linux (sem data): chega pelo launcher assim que o EAC v2 estiver funcionando com uma “massa crítica” de distros.

Sobre o launcher, a Epic afirma que ele abre em 5,47 segundos contra 10,07 da Steam. O teste foi feito pela Keywords Studios, mas contratada pela própria Epic (então guarde o número com o devido grãu de desconfiança). E o post de anúncio diz, com todas as letras, que o novo launcher foi vibe codado (eu não estou inventando, está lá no primeiro parágrafo).
Um aviso importante: o launcher roda nativo, mas muitos jogos da loja continuam sendo builds de Windows. Eles vão precisar de camada de compatibilidade, e a Epic recomenda checar a compatibilidade de cada um antes de instalar.
Como o EAC v2 funciona (e por que ele não tem driver de kernel)
Essa é a parte mais interessante tecnicamente.
No Windows, o EAC depende de um driver de kernel. No Linux v2, a Epic decidiu não usar módulo de kernel nenhum. Em vez disso, o anti-cheat vai se apoiar em recursos de segurança que o próprio Linux já tem, mais um serviço do systemd e programas eBPF próprios.
O serviço do systemd só sobe quando um jogo protegido abre, e para quando você sai do jogo. Não fica rodando em segundo plano o tempo todo.
Os requisitos são oito:
- Kernel e módulos assinados com uma chave “bem conhecida” (well-known key)
- TPM 2.0 ativado na BIOS
- Secure Boot ativado, usando só chaves bem conhecidas
- Measured boot, que o systemd-boot e o GRUB normalmente já fazem
- IOMMU ativado, sem passthrough (dispensado em portáteis)
- Kernel lockdown em modo integrity
- Kexec desativado
- BPF LSM carregado e ativo
E quais são essas chaves bem conhecidas? A lista inicial inclui Ubuntu (e derivadas como Mint), Fedora (e Silverblue), Universal Blue (Bazzite, Bluefin, Aurora), Debian, openSUSE, SUSE Enterprise, Rocky Linux, AlmaLinux e a CA da Microsoft que assina o shim.
A Epic diz que quer tornar essa lista open source e aceitar PRs da comunidade. Também está chamando mantenedores de distro pelo e-mail linux-gaming@epicgames.com, e vai fazer ainda este ano um painel com o Jef Spaleta, líder do projeto Fedora.
Mão na massa: seu PC passaria no EAC v2?
O EAC v2 ainda não saiu, mas você já consegue checar boa parte dos requisitos agora. Abra o terminal:
# Secure Boot ativo?
mokutil --sb-state
# TPM 2.0 presente? (deve listar /dev/tpm0 e /dev/tpmrm0)
ls /dev/tpm*
# Modo do kernel lockdown (o ativo aparece entre colchetes)
cat /sys/kernel/security/lockdown
# BPF LSM ativo? (procure "bpf" na lista)
cat /sys/kernel/security/lsm
# Kexec desativado? (1 = desativado)
cat /proc/sys/kernel/kexec_load_disabled
# IOMMU ativo? (se a pasta estiver vazia, não está)
ls /sys/kernel/iommu_groups/
Não se assuste se metade der “não”. A própria Epic avisa que esses recursos não vêm ligados em toda distro. E tem um detalhe que ajuda: você não precisa deixar o sistema assim o tempo todo. Dá para manter uma entrada de boot separada, só para jogar, e seguir com sua configuração normal no resto do tempo.
E se você quiser só testar o launcher:
chmod +x EpicGamesLauncher-x86_64.AppImage
./EpicGamesLauncher-x86_64.AppImage
O AppImage está na página oficial do Preview.

“Mas e o Steam Deck?”
Essa é a pergunta que todo mundo vai fazer, então vamos direto: o Steam Deck não suporta os recursos exigidos pelo EAC v2. A Epic diz que está conversando com a Valve e espera suportar no futuro, mas por enquanto o portátil que mais popularizou jogo no Linux fica de fora (ironia que não passa despercebida, né?).
Outra dúvida comum: se você abrir um jogo protegido sem cumprir os requisitos, não toma ban. Só aparece uma mensagem de erro.
O ponto polêmico: segurança ou liberdade?
Aqui a comunidade vai se dividir, e com razão. Então vamos aos dois lados.
- Vantagem: é uma abordagem bem mais respeitosa do que a do Windows. Nada de driver proprietário rodando no seu kernel. Usa recursos que já existem no Linux, roda só durante o jogo e a lista de chaves deve virar open source. Além disso, é a primeira vez que a Epic trata o Linux como plataforma de verdade, e isso pode puxar outros estúdios junto.
- Desvantagem: na prática, quem decide se o seu sistema é “confiável” é uma lista de chaves mantida pela Epic. Quem compila o próprio kernel, usa uma distro fora da lista (Arch e Gentoo não aparecem nela) ou depende de módulo fora da árvore, como o driver da NVIDIA, vai ter que se adaptar. E o módulo da NVIDIA precisa estar assinado por chave bem conhecida também. Para muita gente que joga, isso não é detalhe.
O objetivo aqui não é dizer se você deve aplaudir ou boicotar. É você entender o que está sendo pedido do seu sistema e formar sua própria opinião, e não ser apenas um repetidor de slogan de qualquer um dos lados.
E agora?
O launcher você já pode testar hoje. O EAC v2 e o Fortnite ainda vão demorar, porque dependem das distros se alinharem aos requisitos.
Se você joga, vale testar o launcher, conta aqui nos comentários como foi na sua distro.
Nota do autor: eu rodo Fedora com GNOME, então estou bem no meio do público-alvo dessa primeira leva: o Fedora 43 está na lista de distros suportadas do launcher e a chave do Fedora já está na lista de chaves bem conhecidas.
Não é todo dia que a distro que você usa aparece primeiro num anúncio de uma empresa desse tamanho. 🙂