Você já sentiu falta de ter o WhatsApp, Notion ou YouTube Music funcionando como um aplicativo independente no seu Linux como webapp? Até pouco tempo, essa experiência era muito mais comum em navegadores baseados no Chromium, como Chrome, Edge e Brave.
Mas existe uma solução poderosa e pouco conhecida para quem quer permanecer no ecossistema do Firefox com total privacidade.
Neste artigo, vou te mostrar como usar o projeto Progressive Web Apps for Firefox, também conhecido como FirefoxPWA, para criar webapp progressivos no Firefox, rodando no Linux. A instalação é limpa, o resultado é integrado ao desktop e você ainda escapa do domínio do Google e da fome de RAM do Electron.Antes de continuar, vale um esclarecimento importante: quando falo em Chromium aqui, não estou me referindo apenas ao navegador Chromium instalado no sistema, mas ao motor e ao ecossistema Chromium, que servem de base para navegadores como Chrome, Edge, Brave e também para soluções como Electron.

1. O que são PWA’s?

PWAs, ou Progressive Web Apps, são sites que se comportam como aplicativos: podem ter janela própria, ícone na área de trabalho, notificações e, dependendo do serviço, funcionar parcialmente offline. Grandes serviços como WhatsApp Web, Spotify, Google Maps, Notion e YouTube Music usam ou se beneficiam desse tipo de experiência. São os famosos WebApps.

O problema? O Firefox atualmente não oferece, de forma estável e integrada como no Chrome ou Edge, uma opção nativa para instalar sites como aplicativos no desktop.


Enquanto usuários de navegadores baseados em Chromium conseguem “instalar site como app” com poucos cliques, quem usa Firefox acaba ficando preso às abas do navegador ou recorrendo a gambiarras como o Nativefier, que empacota o site em um mini-Chromium usando Electron.

Por que evitar o Electron é importante:

  • Privacidade: O Electron é baseado no Chromium, o motor do Google. Mesmo sem estar logado, você alimenta o ecossistema de rastreamento que domina a web. O Firefox, por outro lado, tem proteção anti-rastreamento reforçada por padrão.
  • Economia de recursos: Cada app Electron carrega uma instância baseada em Chromium. Isso pode aumentar bastante o consumo de memória, principalmente quando você transforma vários sites em “apps” separados.
  • Coerência: Se você já usa o Firefox como navegador principal, por que ter outro motor só para “aplicativos”? Com essa solução, você continua usando uma runtime baseada no Firefox/Gecko, sem precisar depender de Chromium ou Electron para cada app.

2. A solução: Progressive Web Apps for Firefox (WebApp)

O projeto Progressive Web Apps for Firefox, também conhecido como FirefoxPWA, resolve essa limitação com uma abordagem engenhosa: um conector nativo instalado no sistema + uma extensão do Firefox.

Quando você manda “instalar este site como app”, o conector cria um lançador .desktop e usa uma runtime baseada no Firefox para abrir aquele site em uma janela própria, sem abas, sem barra de endereços e com o ícone do serviço.

O resultado é uma experiência muito próxima de um aplicativo nativo: o webapp aparece no menu do sistema, pode ser fixado na dock, tem janela separada e não exige empacotar um Chromium completo para cada serviço.

Outro detalhe importante: cada PWA pode usar um perfil separado, o que ajuda a isolar os aplicativos entre si e do navegador principal. Isso também evita misturar completamente sessões, extensões e configurações pessoais do seu Firefox principal com cada webapp criado.

3. Instalação no Linux

Vamos do zero ao primeiro webapp em poucos minutos.

O projeto oferece pacotes para diferentes bases Linux. Como as famílias mais comuns no desktop costumam ser Debian/Ubuntu e Fedora/RPM, vou mostrar os dois caminhos principais.

Se você usa Arch, openSUSE, Gentoo, NixOS ou outra distribuição, consulte a documentação do projeto, porque o processo de instalação pode mudar.

3.1 Instalação no Debian, Ubuntu, Linux Mint e derivados

Se você usa uma distribuição baseada em Debian ou Ubuntu, pode adicionar o repositório DEB do projeto pelo Packagecloud e instalar o conector nativo com o apt.

Abra o terminal e rode:

sudo apt update
sudo apt install debian-archive-keyring curl gpg apt-transport-https -y


sudo install -m 0755 -d /etc/apt/keyrings


curl -fsSL https://packagecloud.io/filips/FirefoxPWA/gpgkey | gpg --dearmor | sudo tee /etc/

echo "deb [signed-by=/etc/apt/keyrings/firefoxpwa.gpg] https://packagecloud.io/filips/FirefoxPWA/any any main" | sudo tee /etc/apt/sources.list.d/firefoxpwa.list > /dev/null

sudo apt update
sudo apt install firefoxpwa -y

firefoxpwa –version

Esse comando adiciona o repositório do FirefoxPWA no sistema, atualiza a lista de pacotes e permite instalar o conector nativo usando o gerenciador de pacotes da própria distribuição.

Depois da instalação, confira se o comando está disponível:

firefoxpwa --version

Se a versão aparecer no terminal, o conector nativo foi instalado corretamente.

Exemplo de saida no terminal com sucesso

Leia: Como Instalar Ubuntu em Dual Boot com Windows

3.2 Instalação no Fedora e distribuições compatíveis com RPM

Se você usa Fedora ou uma distribuição compatível com pacotes RPM/DNF, pode adicionar manualmente o repositório RPM do projeto.

O passo a passo abaixo foi testado no Fedora 44, mas também deve funcionar em outras versões recentes do Fedora.

Abra o terminal e cole o bloco abaixo para adicionar o repositório RPM e sua chave GPG:

sudo tee /etc/yum.repos.d/firefoxpwa.repo > /dev/null <<EOF
[firefoxpwa]
name=FirefoxPWA
metadata_expire=7d
baseurl=https://packagecloud.io/filips/FirefoxPWA/rpm_any/rpm_any/\$basearch
gpgkey=https://packagecloud.io/filips/FirefoxPWA/gpgkey
       https://packagecloud.io/filips/FirefoxPWA/gpgkey/filips-FirefoxPWA-912AD9BE47FEB404.pub.gpg
repo_gpgcheck=1
gpgcheck=1
enabled=1
EOF

Agora atualize a lista de pacotes do repositório e instale o programa:

sudo dnf makecache --disablerepo="*" --enablerepo="firefoxpwa"
sudo dnf install firefoxpwa -y

Depois da instalação, verifique se o conector foi instalado corretamente:

firefoxpwa --version

Se o terminal retornar a versão instalada, está tudo certo.

Observação: este artigo foi testado no Fedora 44, mas os comandos acima também devem funcionar em versões recentes do Fedora e em distribuições compatíveis com RPM/DNF.

Em sistemas baseados em Debian/Ubuntu, use o caminho com apt mostrado na seção anterior.

3.3 Instalar a extensão no Firefox

Acesse Firefox Add-ons: PWAs for Firefox e clique em Adicionar ao Firefox.

Aguarde a instalação do Connector e do Runtime

Exemplo de instalação da extensão completa
Exemplo de instalação da extensão completa

Pronto! O ambiente está preparado.

3.4 Criar seu primeiro app usando o WhatsApp

  1. No Firefox, então, entre em web.whatsapp.com
  2. Clique no ícone da extensão PWAs for Firefox, que fica na barra de ferramentas ou no menu de extensões;
  3. Escolha “Install this site as an App”;

Exemplo de print com Install current site a mostra no topo direito

Na janela que abrir, personalize o nome e confirme.

Aparecerá o ícone do WhatsApp no seu menu de aplicativos. Ao abrir, ele será exibido em uma janela independente, sem abas e sem barra de URL, funcionando de forma muito parecida com um app nativo.

4. Transformando outros serviços em WebApp

Depois do primeiro webapp, basta repetir o processo para qualquer site que funcione bem como ferramenta web. Algumas sugestões:

  • Notion: https://www.notion.so/
  • YouTube Music: https://music.youtube.com/
  • Google Calendar: https://calendar.google.com/
  • Trello: https://trello.com/
  • Slack: https://app.slack.com/

Lembre-se: mesmo usando serviços do Google, você estará acessando tudo por uma runtime baseada no Firefox, com o motor Gecko, e não por uma solução empacotada em Chromium/Electron. Isso não elimina todos os rastreadores da web, claro, mas reduz a dependência do ecossistema Chromium para esse tipo de uso.

5. Comparativo com as alternativas

Característica FirefoxPWA Nativefier / Electron Script manual / firefox-nativefy
Motor usado Firefox / Gecko Chromium / Blink Firefox / Gecko
Consumo de RAM Geralmente menor, por não empacotar Chromium por app Pode crescer bastante, pois cada app carrega uma base Chromium Geralmente menor, quando funciona corretamente
Privacidade / anti-rastreamento Baseado no ecossistema Firefox Baseado no ecossistema Chromium Baseado no ecossistema Firefox
Facilidade de instalação Extensão + conector nativo Comando npm Script manual, menos amigável
Atualizações Via gerenciador de pacotes + extensão Via npm ou atualização manual Depende do script/projeto usado
Integração com desktop Completa: ícone, janela própria e lançador Boa Boa quando configurado corretamente

Na prática, o FirefoxPWA acaba sendo o método mais redondo para quem quer continuar usando Firefox: é estável, fácil de manter e fiel ao ecossistema Gecko.

6. Problemas comuns e soluções

Erro de GTK no terminal ao criar perfil:
Se você vir mensagens como Theme parsing error: gtk.css, ignore. Normalmente é apenas um aviso visual relacionado ao tema GTK e não afeta o funcionamento do app.

A extensão não instala o app:
Verifique se o conector nativo foi instalado corretamente rodando:

firefoxpwa --version

Se o comando não retornar a versão instalada, refaça o passo de instalação do conector nativo.

O app abre uma janela comum do Firefox com abas:
Certifique-se de que está usando a extensão “PWAs for Firefox” e não outra solução parecida. A criação do app deve ser feita pelo ícone da extensão, não por algum atalho genérico do navegador.

Quero desinstalar um PWA:
Você pode usar o próprio gerenciador de aplicativos do sistema. No GNOME, por exemplo, clique com o botão direito no ícone, vá em Mostrar detalhes e depois em Desinstalar.

Também é possível remover pelo terminal:

firefoxpwa uninstall <nome-do-app>

7. Conclusão: liberdade sem sacrificar a experiência

O ecossistema da web vive um paradoxo: queremos aplicativos práticos, mas não queremos ficar presos ao rastreador do Google. O projeto FirefoxPWA oferece um caminho intermediário brilhante: a conveniência dos PWAs com a privacidade e a leveza do Firefox.

Para quem usa Linux e se recusa a trocar o Firefox por qualquer derivado do Chromium só para ter um ícone do WhatsApp na dock, essa é uma das soluções mais interessantes hoje. Em poucos minutos, seu sistema ganha um novo leque de aplicativos independentes, sem abrir mão da filosofia open source e do respeito aos seus dados.

Leia também: Sua placa NVIDIA parou no Fedora 44?


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